“Homem e espaço são entidades indissociáveis no mundo” de acordo com o filósofo Heudegger (1962), na questão da essência do Ser, descrevendo-o como “ser no mundo”. Ele entende que o Homem e o Mundo não são entidades distintas e, por isso, não compreensíveis separadamente.

Este é o ponto de partida do projecto de Pedro Pires, que volta a Luanda com uma exposição individual e que pretende explorar questões sobre identidade e estereótipos em relação com a educação, história e instituições. O artista propõe nesta exposição, não um, mas diálogos múltiplos com a cidade através do Corpo e do espaço arquitectónico (e da sua relação), em referência, por exemplo, aos gradeamentos das janelas, varandas e portas como elemento – da presença de um passado colonial num contexto pós-colonial mas igualmente no passado e vivência individual, experimentado e sentido por cada um -, e estabelece paralelismos entre espaço privado e público; natureza e cultura; pele e estrutura; entre unidade e multiplicidade e entre fixação e mutação.

Enquanto enquadramento, corpo é entendido como sendo o ponto de partida da accão que tomamos em direcção às coisas e no espaço, isto é, de toda a noção que temos de espacialidade e que inclui a sua percepção e compreensão. Ao mesmo tempo, corpo é sujeito e objecto / actor e agente de transformação, e é (também) neste sentido que o corpo é politico, na medida em que só pelo ganho de uma consciência individualizada (pela experiência e vivência) em relação com o espaço envolvente é que ele se torna de facto sujeito e, como tal, capaz de uma acção interveniente no colectivo social em que se inscreve.

Pedro Pires propõe-nos nos seus “desenhos” – na técnica e na forma – ao contrário de figurações estáticas, puramente representativas, figurações dinâmicas, ou seja, aquelas que vão para além da representação da unidade fixa para a multiplicidade expansiva dos movimentos e que, por isso mesmo, fazem de cada um desses corpos vários corpos, como se simultâneos. A velocidade observada e sentida multiplica as dimensões e as percepções que um corpo pode atingir quando emerge das possibilidades da experiência e desse modo se abre e se desdobra em sensações múltiplas que por sua vez o multiplicam e o desdobram. A pele, por si mesma uma estrutura, limita o corpo, mas não é definitivo, e está em constante proposta de mutação e reelaboração das suas próprias formas, como num processo continuo de reconstrução de identidade.

Por outro lado, partindo da observação de elementos do quotidiano nas cidades, elementos esses reais, concretos, mas muitas vezes invisíveis na consciência de quem os vivencia ou os “experiencia”, encontramos aqueles que podem ser descodificados e compreendidos pelo colectivo de uma mesma cultura. Os gradeamentos, mais geométricos ou mais florais encontrados nas janelas e portas das casas e edifícios podem ser elementos funcionais, visuais ou simbólicos ou tudo isso de uma vez só. Podem ser produto de um desejo de protecção, um reforço da esfera privada, um abrigo, mas são sobretudo relativos e em relação com o meio exterior, da esfera do social e portanto, pública.

Pedro apresenta-nos 9 esculturas numa simbiose corpo/espaço e uma instalação (Pele-Dentro e Fora), à escala humana, que nos impele à experiencia e intervenção e  cujos elementos incorporados são também encontrados na arquitectura que, definidos como actos tridimensionais, compartilham interpretações a respeito de elementos como espaço, tempo, matéria, forma e significado e evidenciam-se como manifestações singulares para uma análise que procura revelar possíveis interfaces existentes nas relações entre o ser humano e a condição que o envolve. O Mundo não é uma caixa no qual o homem existe, Homem e Mundo, ser e espaço são indissociáveis. Se a Arquitectura serve de interface entre o Ser e o Mundo, transformando-se num instrumento de materialização e expressão da ética das sociedades, talvez possamos inferir que incorpore o testemunho da permanente mutação na nossa cultura.

Curadoria: Sónia Ribeiro